segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Hurt



você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.
 
                                     Caio Fernando Abreu
 
 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ah domingo...

Dentes

Eu olho aqueles dentes quebrados, tão particulares e penso que seria impossível não me apaixonar por eles.
Eu gosto de histórias sobre dentes. Desde o formato, até a dor que causa a mordida. Eu gosto daqueles dentes quebrados em particular. Porque eles habitam a boca que eu beijo, por que foram a primeira coisa que notei, num conjunto inteiro, feito só de singularidades. Porque eles já se negaram diversas vezes a sorrir pra mim, e quando pensei que não mais podia correr atrás daquele sorriso, eles vieram trincados, cheios de saudades, querendo engolir minha presença. Gosto de como a boca pronuncia a palavra "bem", como se não houvesse outro lado, que não o lado bom. E à noite, quando o corpo dorme, os dentes batem, e batem, e batem...

Entre todos os abraços, aquele que te conforta é o único que você não vai receber.


Então eu sento no chão, apoio as costas na porta trancada, há tanto espaço e tanto silencio, que eu me sinto cada vez menor. E tem também o medo, medo do escuro, e da solidão que domina esta comodo agora. Estou só. tiro a blusa, ainda sentada no chão, acho a solução.
Melhor tomar um banho; eu na realidade nem sei se gosto de banho, não me lembro de ter vontade de tomar banho nos momentos felizes,mas é ressurgir essa solidão, esse medo que lá vou eu correndo tomar banho... Cara, como a ausência machuca.
A água escorrendo e eu penso: Onde estão os moradores desta casa? será que só sobrou esse vazio? Casa, casca. sem recheio, sem cheiro, sem movimento. Só o pó, o vento e eu. Vem o sono, passado o medo, então eu aproveito pra fazer passar o dia. Durmo, porque quando durmo, não conto o minuto que precede a hora, não vejo o espaço, não vejo o escuro, só os vultos que antes enchiam esse lugar de barulho, alegria e luz.

E no fim das contas, é só isso que fazemos. Perdemos e perdemos.

A gente "perde" o habito de desejar coisa boa pra quem a gente ama, e está sempre perto, como se só o nosso desejo interno fosse o suficiente para que a  pessoa sinta. Parece meio bobo ficar desejando coisa boa, quando a pessoa sabe o que sentimos e ai, vem a pior parte,esquecemos de lembrar a pessoa o quanto ela é amada, e o quanto lhe queremos bem. 
    Se há no mundo, erro maior que este, eu desconheço.
Deixar morrer o que de mais bonito há numa relação, é realmente uma lástima. E eu assisto impotente, ponto.
Assisto, e faço minha parte, sempre lembrando às pessoas que me fazem bem, o quanto sou grata pelo amor e o quanto as amo em troca, e desejo sempre e sempre o melhor que possa ser.
não minto que me sinto só, e até um tanto frustrada, mas bom, se eu deixar de fazer, esqueço-me também, perco parte da essência, do que me mantém sentindo. Tanto as dores quanto os amores, fazem parte de um mesmo ciclo, esse que se fecha e recomeça cada vez que temos vontade de dizer eu te amo, e cada vez que "perdemos" o hábito. Eu prefiro prolongar os ciclos e tirar deles tudo que eu puder de bom pra mim, e tento também, fazer com que o ciclo seja bom para as pessoas com quem me relaciono.
"Perder" a sensibilidade é uma coisa que realmente me amedronta, deixar-me levar por aquilo que é banal, sem resistir, debater, espernear, só ir andando feito gado, pra cerquinha de mim mesma é realmente assustador. Então eu não me recolho.
E grito sim, sou toda amores, perdoo, tento, vou, amo, agrado, mimo e desejo só verão aos meus queridos; embora antes exigisse a mesma intensidade, agora já não me abalo. O que eu faço com o meu amor, e pra quem eu o dou, é problema meu, o que eles fazem com o amor deles, é problema deles.